Opinião, Política

Para onde vai o espólio da Manuela? Conjecturas sobre o novo cenário eleitoral

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Em 15 de dezembro publiquei no meu site uma análise da pesquisa do Instituto Paraná sobre as eleições municipais de Porto Alegre, em 2016. Mas muito mudou de lá para cá.

Na ocasião, Manuela D´Ávila era a favorita, seguida por Luciana Genro. Melo, o vice-prefeito e candidato da situação, era desconhecido por parcela significativa da população e apresentava baixos índices eleitorais, crescendo apenas na polarização contra as garotas de esquerda. Hoje, Manuela anuncia que não é candidata e Melo, se fez conhecer e mostrou trabalho ao ocupar espaços na mídia e tomar atitude após a catástrofe climática que se abateu sobre Porto Alegre no dia 21 de janeiro.

Em dezembro, havia mais de uma dezena de possíveis candidatos, vários da base aliada. Hoje, faltando pouco mais de sete meses para as eleições, alguns nomes parecem ter recuado ou não pretendem mesmo ser candidatos. Não vejo a possibilidade do PSOL querer o apoio do desgastado PT este ano e, é provável que, para não fazer tão feio, o provável candidato será Raul Pont. Óbvio que falta uma nova pesquisa para demonstrar como as peças vão se rearranjar na distribuição dos espólios de Manuela, mas algumas conjecturas podemos fazer.

Manuela tinha um posicionamento que lhe permitia pegar eleitores moderados de esquerda e de centro. Estes eleitores votarão em Luciana Genro? Nada moderada? Imagino que os de centro-esquerda tenham uma tendência a migrarem para Sebastião Melo, pois é o perfil da gestão atual. Já os de Centro, podem optar entre Melo e outra candidatura.

Na análise anterior eu coloquei que acreditava em três candidaturas principais para a disputa na cidade: uma de oposição de esquerda, uma de situação de centro-esquerda e outra no campo centro-direita. Enquanto podemos ver as duas primeiras posições basicamente ocupadas por Luciana Genro e Sebastião Melo, no campo da centro-direita, onde temos potencial de votos este ano, nenhum nome tem se consolidado. Candidatura como a de Onyx Lorenzoni (DEM), por exemplo, bem vista por esta parcela do eleitorado, ainda não pode ser tida como certa. Onyx sabe que precisa de partidos na base e de tempo de TV para se tornar competitivo. A de Nelson Marchezan (PSDB) permanece solitária, por enquanto e tende a disputar os mesmos partidos que a de Onyx. Outras candidaturas que foram aventadas, como a do PTB por exemplo, parecem mais com balões de ensaio, como marcação de território em busca do cargo de vice ou como atitudes de dirigentes partidário que estão preocupados em fazer bancada na Câmara de Vereadores, mas que não tem verdadeira aspiração pelo cargo, tendendo a se unirem com x ou y em um segundo turno.

Vejo que Melo, em um primeiro momento, é o maior beneficiário com a desistência de Manuela. Se ele polarizar a eleição com a Luciana Genro, vence a eleição aglutinando o voto útil, pois na cabeça pragmática do eleitor, antes um governo de centro-esquerda que um de esquerda à Lulu Genro. Melo tende a aglutinar os votos também porque em um ano de dificuldades tremendas para financiar uma campanha, continuará com a máquina na mão e isto cria uma sensação de força e capacidade de vitória. A tendência é que partidos como o PP e o PSB apoiem o projeto de continuidade. Uma terceira candidatura pode ser viável, pois temos gente que considera o atual modelo (PMDB-PDT) desgastado e também não quer um prefeito de esquerda, mas esta candidatura precisaria unir todos os outros atores políticos (PPS, DEM, PSDB, PSC, SOL, PSD), o que não aconteceu até agora.

Relembrando, a tendência do comportamento eleitoral em Porto Alegre tem sido pela polarização e pelo voto útil há mais de duas décadas. Dificilmente teremos dois candidatos de esquerda em um segundo turno, tipo PT x PSOL.

Continuo acreditando, mesmo sem ver novas pesquisas, que o centro vai ser o fiel da balança desta eleição. A campanha mais curta, com 45 dias e apenas 35 dias de TV não favorece os novos candidatos. O tempo é escasso para construir imagem e discurso, se fazer conhecer ou apresentar programas detalhados de governo. Os candidatos mais conhecidos, desde que preencham os pré-requisitos deste ano, sairão na frente. Destaco que Luciana Genro terá o limitante de não participar dos debates em rádio e TV, pois segundo a nova lei eleitoral o PSOL não tem o número mínimo de deputados federais eleitos.