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Comportamento eleitoral no Rio Grande do Sul – a tendência à polarização e ao voto útil

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Uma das características mais importantes do comportamento eleitoral do gaúcho tem sido a forte polarização política que aglutina os eleitores entre blocos de esquerda e direita, favorecendo a volatilidade eleitoral entre blocos de espectro ideológico similar. Podemos ver isto acontecer nas eleições estaduais de 2002, 2006 e 2014 e nas municipais de 2004, em Porto Alegre. Levantarei aqui alguns exemplos atuais da teoria, mas autores como Peres, Noll e Trindade tem vastos estudos sobre o tema.

Peres identifica que no Rio Grande do Sul, a partir de 1990, a volatilidade eleitoral ideológica quase inexiste, caindo de 18,9% (1986-1990) para 2% (1990-1994). Isto indica que as clivagens ideológicas se acirraram nas últimas décadas. O que significa que eleitores não trocam seu voto da esquerda para a direita, ou vice versa. Os eleitores reconhecem as similaridades entre os partidos e os separam em blocos ideológicos distintos. Em compensação, a flutuação dos eleitores dentro dos blocos de mesma ideologia ou perfil, é alta.

Noll e Trindade identificam um perfil político singular no Estado, em comparação com o resto do Brasil, com estabilidade e coerência de padrões eleitorais e valorização consistente dos partidos políticos. No período pós-45, sobressai-se o confronto PTB e anti-PTB onde o crescimento do PTB provocou como reação uma aglutinação, crescente, de forças anti-PTB. Esta polarização coexistia com o sistema multipartidário e durou de 1947 a 1962. Os momentos de derrota do PTB correspondem a situações onde vários partidos identificaram-no com inimigo comum e, esquecendo divergências, se uniram como única forma de vencer. Foi o caso da Frente Democrática e da Aliança Democrática Popular, em 1954 e 1962.

No período do regime autoritário militar as forças PTB e anti-PTB se aglutinaram entre a Arena e o MDB, mantendo o confronto político. O MDB aglutina as forças trabalhistas e a ARENA a coligação anti-PTB. O confronto trabalhistas x Conservadores-liberais dura todo o regime militar. O mesmo perfil dicotomizado prevalece no pós-64, com o MDB-PMDB e ARENA – PDS – PFL. Entre o período de 1986-1994 o PMDB, PDT e PT dividem um eleitorado de centro-esquerda, enquanto o grupo de tendências mais conservadora-liberal fica com 30% dos eleitores. Entre 1994 a 2002, começa a se formar um bloco anti-PT, respondendo ao rápido crescimento do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul.

A partir daí a polarização partidária na disputa PT x anti-PT passa a ser parte do comportamento do eleitor gaúcho.

O gaúcho deixa de votar no partido que prefere para votar no que tem mais chances de ganhar, evitando a vitória do partido ou bloco que ele considera pior, exercendo uma modalidade de voto útil. Este comportamento é estimulado pela divulgação das simulações de segundo turno das pesquisas, que canalizam o padrão de comportamento eleitoral, aglutinando os eleitores.

Podemos citar quatro casos recentes no estado onde os eleitores migraram seus votos para determinado candidato pensando no embate contra o bloco encabeçado pelo PT.

1 – Rigotto (PMDB) e Britto (PPS) x Tarso (PT) – 2002 – Na eleição de 2002, para o Estado, Rigotto (PMDB) disparou nas pesquisas depois que apareceu nas simulações de segundo turno como bem cotado para vencer Tarso Genro (PT), tirando os votos de Britto (PPS).

2 – Fogaça (PMDB) e Onyx (DEM) x Raul (PT) – 2004 – No caso da eleição da coligação de Fogaça (PMDB) contra a de Raul Pont (PT), na disputa para a Prefeitura de Porto Alegre em 2004, os candidatos que apresentaram, nas primeiras pesquisas, bons índices de intenção de voto ou que tiveram crescimento expressivo maior que o de Fogaça, como foi o caso de Onyx Lorenzoni (na época PFL), na reta final da campanha apresentaram queda ou tiveram seu crescimento freado por não apresentarem, nas simulações de segundo turno, a capacidade de derrotar o PT. Os votos migraram para o candidato que apresentava as melhores chances de vitória.

3 – Rigotto (PMDB) e Yeda (PSDB) x Olívio (PT) – 2006 – Na eleição de 2006, para o Estado, em uma virada histórica Yeda Crusius (PSDB) tirou o governador Rigotto (PMDB) da disputa já no primeiro turno, aglutinando as forças contra Olívio Dutra (PT).

4 – Ana Amélia Lemos (PP) e José Ivo Sartori (PMDB) x Tarso Genro (PT) – 2014 – Uma série de ataques por parte da campanha do PT acaba por enfraquecer a candidata Ana Amélia Lemos, que liderava todas as pesquisas, e seus votos começam a migrar para Sartori. Após a divulgação da primeira pesquisa de simulação de segundo turno mostrando que Sartori ganharia de Tarso, os votos da progressista migram em massa para o PMDB, dando a vitória a Sartori.

Os quatro casos apontam uma tendência no comportamento do eleitor gaúcho, fortemente comprovada pela análise histórica dos processos políticos no Rio Grande do Sul. Toda vez que tivermos disputas polarizadas a tendência é que o apelo ao voto útil, estimulado pela divulgação de pesquisas, principalmente das simulações de segundo turno, influencie de forma decisiva o resultado final da eleição, escolhendo apenas um candidato de cada perfil político.