Economia, Política

As escolhas que o Brasil tem pela frente

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O economista e ex-secretário estadual da Fazenda, Aod Cunha, esteve palestrando recentemente na Universidade Aberta, em uma iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. A fala de Aod, sobre os motivos pelos quais o Brasil perdeu a chance de ficar rico nas últimas décadas, foi centrada na questão demográfica e nos impactos que esta terá no Brasil nos próximos anos.

Pudemos ver que o mundo era bastante pobre até o início do século XIX, com uma renda média de $ 3 dólares por dia. De lá para cá, alavancados pelas revoluções tecnológicas sucessivas, a riqueza cresceu bastante, principalmente nas últimas três décadas. Os EUA, por exemplo, saíram de $ 3 para $ 150 dólares por dia, desde 1800.

Aod destacou que mesmo que os 1% dos mais ricos do mundo tenham aumentado, a pobreza absoluta também vem caindo. O Banco Mundial colocou que em 2015, pela primeira vez, menos de 10% da população vive com menos de $ 1,9 dólares por dia, mesmo no cenário de desaceleração de crescimento que o mundo enfrentou pós 2008.

Os maiores desafios neste cenário, indicados pelo ex-secretário da Fazenda, hoje consultor internacional de diversas empresas, é que a desaceleração do crescimento global afeta mais os países com menor nível de desenvolvimento. Para estes países poderem alcançar altos índices de desenvolvimento teriam que passar por intensas reformas, difíceis de serem executadas em ambientes democráticos pelo alto impacto político que têm, como a Reforma da Previdência.

É preciso analisar o fato de que todos os países considerados desenvolvidos tiveram um bônus demográfico onde uma grande força de trabalho alavancou a economia. Isto é normal em economias de países jovens, cujas pirâmides demográficas tem a base larga. Os dados apresentados, todos disponíveis na internet, mostraram que o Brasil hoje tem uma renda média per/capita dentro na média mundial de $ 13 mil dólares. Não somos considerados um país pobre, mas estamos distantes de sermos desenvolvidos. O problema é que nos tornaremos um país velho antes de conseguirmos nos transformar em um país rico. Nossa população está envelhecendo rápido e a produtividade não cresce na velocidade necessária para trazer uma compensação a perda da força de trabalho que pudesse incidir no PIB.

Aod apontou que o Brasil sempre teve um modelo errático de crescimento, tendo acelerado entre as décadas de 60/70 e estagnado nas décadas de 80/90, sempre dependente do aumento da dívida pública, do consumo interno e de cenários externos favoráveis. Ao mesmo tempo, o país permanece como uma das economias mais fechadas e protecionistas do mundo, por culpa não apenas dos políticos e das leis, mas de parte do meio empresarial que se serve disto.

Por conta da demografia e do envelhecimento do país, praticamente todo crescimento do PIB terá que vir de aumento de produtividade da economia brasileira mas faltam investimentos em planejamento, infraestrutura, pesquisa e tecnologia, que possam aumentar a produtividade. A carga tributária e a alta burocracia provocam ano a ano a desindustrialização do país.

O caminho para o Brasil sair desta sinuca passa, invariavelmente, por um pacto onde os diversos grupos que compõe a sociedade aceitem ter perdas em curto prazo para que tenham todos ganhos no longo prazo. É preciso fazer as Reformas Previdenciária, Trabalhista, Tributária, Política. É preciso melhorar a qualidade da política e dos nossos representantes, saindo do “o que fazer” para o “como fazer”. E, principalmente, é preciso de um estado enxuto, que caiba nele mesmo, e onde os gestores responsáveis estão focados em entregar serviços básicos de qualidade para a população, abrindo a economia e provocando uma grande desestatização em nível nacional.

Para mim parece muito claro qual o caminho que devemos seguir e por quais decisões queremos ser corresponsáveis, por ação ou falta dela. Tudo isto passa por 2018 e pelas eleições, onde sermos chamados a fazer uma grande renovação no meio político, selecionando aqueles candidatos que estejam afinados com a agenda necessária para o crescimento do país.

Segundo o economista, caso optemos por não fazer nada disto, por medo de arcar com o desgaste político, teremos um Estado que chegará por volta de 2024 com uma capacidade de investimento ZERO, onde tudo o que o Estado capta de impostos é unicamente usado para pagar a folha de ativos e inativos. Caso isto acabe por pressionar e derrubar a PEC dos Gastos, teremos outras consequências perversas, como a volta da inflação a níveis que nem lembramos mais.