Artigo, Política

Neste segundo turno, o eleitor não precisará votar no menos pior

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Há vinte dias da eleição de primeiro turno, eu vinha dizendo para alguns amigos e lideranças políticas que a esquerda pura estaria fora do segundo turno em Porto Alegre. Vários estavam descrentes ante esta possibilidade e vinham com longas justificativas para tanto. Há dez dias eu já dizia que Marchezan (PSDB) chegaria na frente de Melo (PMDB)  no segundo turno, levado principalmente pela insatisfação de parte dos eleitores em relação a insegurança pública, a qualidade dos serviços e a aparência decadente da capital.

Não foi chute. Conheço bem o cenário polarizado daqui. Minha dissertação de mestrado na UFRGS foi uma das primeiras no País a tratar sobre o anti-petismo (que eclodia após 16 anos de prefeitura petistas), e o voto útil anti-esquerda. Na dissertação demonstrei como as simulações de segundo turno, apresentadas nas pesquisas, tinham o poder de direcionar este voto útil anti-esquerda. Isto ainda em 2004. Portanto, sei bem o quanto é difícil quebrar a histórica polarização política no nosso Estado, principalmente na capital.

Neste site publiquei vários artigos sobre o comportamento do eleitor gaúcho. Dadas diversas pesquisas acadêmicas, apesar da volatilidade eleitoral ser bem grande pelas bandas de cá, e o eleitor pouco fiel aos candidatos,  o RS é o Estado com a MENOR volatilidade eleitoral entre blocos ideológicos. O que significa dizer que quem é esquerda, permanece esquerda, podendo transitar entre os partidos Psol, PT, Rede, PDT, etc. E quem não é de esquerda , idem.  Ou seja, tirando o índice de eleitores que tem fidelidade e militância partidária, que são uma minoria, todos os outros eleitores podem trocar de PP, para PMDB, ou PSDB. E porque isto? Porque normalmente é a lógica do ”votar no menos pior” ou “votar contra a esquerda” que tem prevalecido em nosso cenário polarizado.  Vimos isto em Brito x Tarso x Rigotto; em Rigotto x Olívio x Yeda; em Tarso x Sartori x Ana Amélia.

O que mudou nesta eleição? O desmascaramento da ORCRIM petista pela Lava Jato; a grave crise econômica, política, ética e moral, decorrente dos governos Lula-Dilma e os quebra-quebras dos Black Blocks em Porto Alegre, entre outros fatores, colocaram a esquerda pura pra fora do segundo turno. O que temos é um interessante cenário Marchezan x Melo.

Sobre este cenário vejamos as seguintes possibilidades:  1 – Os eleitores de esquerda migram para Melo ou anulam/se abstém de votar:  a) a tendência da esquerda mais radical psolista é anular o voto ou se abster; b) parte da esquerda petista até pode ir de Melo porque mesmo ele sendo do PMDB, que eles rotulam de “golpista”, Melo está casado com a Juliana Brizola na chapa. Juliana é afilhada política do presidente nacional do PDT, Luis Carlos Lupi, o homem que ama Dilma e que mandou cassar os trabalhistas que votaram a favor do impeachment. Ou seja, uma coisa anula a outra. Aliás, acredito que a escolha do vice do PDT foi um dos motivos pelos quais o Melo não chegou ao segundo turno na frente de Marchezan; c) Melo sempre foi um candidato mais de esquerda do que de centro, basta ver suas origens políticas e mesmo que hoje Melo se posicione ao centro, ainda é atrativo para eleitores da esquerda light;  2 – os eleitores que não são de esquerda e que votaram no Melo apenas porque não queriam que a Luciana Genro ou o Raul assumissem a prefeitura vão poder votar no Marchezan. Votos vão migrar, com certeza.

O segundo turno é comparação de personalidades, de capacidades e projetos de gestão. É uma campanha nova. Para onde o PTB irá pode fazer esta balança pender de forma decisiva, mas tenho o palpite que o PTB irá para a coligação com menos partidos, onde poderá ter mais protagonismo.  As cartas estão sendo dispostas e o jogo político está para começar. Esta eleição eletrizante de 2016 pode ser uma quebra de paradigma na cidade, elegendo diretamente o primeiro prefeito que não é de esquerda desde Loureiro da Silva, em 1960.