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O Crash de 29, a Grande Depressão e o surgimento do Liberalismo Social

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Embora crises cíclicas façam parte do capitalismo, a de 1929 foi muito mais severa do que as que a precederam (1873, 1895, 1920-1921), por assumir proporção mundial e levar diversos países além dos Estados Unidos a uma grande depressão.

Um ano antes do crash, as ações das grandes companhias americanas subiram rapidamente de valor. Em 20 meses, as cotações dobraram, ao mesmo tempo em que, eram lançadas no mercado muitas novas ações. O grande montante de dinheiro ganho fazia de cada investidor um especulador, em detrimento dos fundos de renda fixa. Aos que aplicavam seus recursos na bolsa parecia impossível perder dinheiro. Boatos sobre fortunas adquiridas da noite para o dia circulavam a toda hora. Durante algum tempo, as casas de corretagem apresentaram movimentação incomum, com um público permanentemente ávido por novidades. No dia 23 de outubro de 1929 a cifra recorde de seis milhões de ações foram vendidas. No dia seguinte, uma grande oferta de ações não encontrou compradores, por se encontrarem com o valor muito acima do real (é o que hoje se chama de “bolha” financeira). Os investidores entraram em pânico e para não perderem todo o dinheiro que haviam investido passaram a vender as ações a preço de banana. Os preços não paravam de cair.

Uma vez quebrada a confiança e instalado o pânico os acionistas passam a agir de forma irracional criando um ciclo vicioso de liquidação dos papéis. Um efeito dominó que atingiu a todos. No dia 24 de outubro de 1929, mais de 12 milhões de ações mudaram de mãos. 85 mil empresas faliram, quatro mil bancos fecharam e as demissões de trabalhadores alcançaram um total aproximado de doze milhões em todo o mundo. A maioria dos países dependia das importações norte-americanas. O único país que não foi atingido pelo crash foi a União Soviética cuja economia estava fechada em si mesma.

O problema do desemprego

A questão do desemprego, antes da Grande Depressão, não era considerada um problema central da economia. A crença era de que poderiam existir curtos períodos de severo desemprego, mas que o mercado, sozinho, se encarregaria de reequilibrar rapidamente a situação. Era a crença no laissez-faire do liberalismo econômico clássico.

O desemprego atingiu, na década de 30, uma escala sem precedentes e parecia sem solução. Segundo Hobsbawm, no pior período da Grande Depressão (de 1932-1933), 23% da força de trabalho britânica e belga, 24% da força de trabalho sueca, 27% americana, 29% da austríaca, 31% da norueguesa, 32% da dinamarquesa e nada menos que 44% da alemã não tinha emprego.

A queda da bolsa gerou a crise, que gerou desemprego, que gerou mais crise. A década de 30 abalou a confiança no lassaiz-faire. Antes de ser um fato isolado na história econômica mundial o crash da Bolsa de Nova York serviu de alerta para todos os mercados financeiros e os economistas: não existe seguro contra este tipo de crise e nem aviso prévio. Era preciso entender o que aconteceu e criar mecanismos de proteção que garantissem o cumprimento de acordos trabalhistas e o respeito aos direitos sociais. Foi neste contexto que surgiu uma nova teoria sobre o peso do desemprego na economia. Quem a desenvolveu foi o economista britânico John Keynes. Nascia com ele o Liberalismo Social. O presidente Roosevelt criou o New Deal sobre as ideias de Keynes. Vejamos.

A Grã-Bretanha já vinha enfrentando desde o final da primeira guerra, no início dos anos 20, crise econômica e altos índices de desemprego.  Keynes, queria compreender as causas do desemprego em uma economia de mercado e sua cura. Keynes não buscava “consertar” as teorias microeconômicas sobre as quais tinha sido educado, mas entender porque elas acabavam por resultar em políticas econômicas inconsistentes. Isto fez com que ele acabasse por se dedicar a “análise de conjuntura” e passando a valorizar a macroeconomia. Seus dados sobre o emprego e o ciclo econômico conduziram a um novo relacionamento, de intervenção moderada, entre o Estado e o conjunto das atividades econômicas de país.

Em 1936 publicou sua principal obra The general theory of employment, interest and money (A teoria geral do emprego, do juro e da moeda), escrito durante a Grande Depressão. O livro tinha por objetivo mostrar a inexistência do princípio do equilíbrio automático na economia capitalista. Não cabe aqui neste texto refutar Keynes, apesar de que considero que ficou frontalmente provado, depois de décadas de Welfare State, de que políticas sociais que não forem autossustentáveis acabam igualmente por quebrar a economia, debilitando o sistema produtivo e criando vícios insanáveis na sociedade dependente de um estado cada vez maior. Voltemos ao contexto.

Para Keynes era preciso aliar a liberdade individual defendida pelo liberalismo clássico à eficiência econômica – com a devida atenção à justiça social. Defendia que a preocupação social não deve ficar nas mãos do mercado porque em momentos de crise ele não se ocupará dela. A teoria do pleno-emprego provocou forte impacto na comunidade intelectual e acabou exigindo do Estado o estabelecimento de mecanismo de controle para regular o mercado. É o chamado Princípio da Demanda Efetiva. Segundo a Teoria Geral do Emprego a economia pode encontrar equilíbrio mesmo convivendo com altas taxas de desemprego. Para resolver a questão o governo precisa intervir aumentando os gastos públicos através de investimentos e incentivos para sustentar a demanda efetiva, mantendo altos níveis de renda, emprego, consequentemente consumo e investimento privado. Entre as medidas de “intervenção moderada” defendidas por Keynes seria preciso que o Estado regulasse a taxa de juros, mantendo-a abaixo da “eficiência marginal do capital” e que expandisse os gastos públicos capazes de absorver os recursos ociosos.

Keynes tinha restrições não só em relação ao liberalismo clássico como também tinha pontos de discordância em relação as teorias comunistas.

Ao contrário do defendido pelo marxismo, para Keynes o capitalismo não estava fadado a ser substituído pelo socialismo. O capitalismo só precisava de reformas significativas visando o pleno emprego e a estabilidade econômica. Keynes foi alvo de muitas críticas por parte dos socialistas que se opunham ao estabelecimento de uma lei única de consumo, ignorando as diferenças de classes. Já a ideia do pleno-emprego, do aumento da intervenção na economia e do Estado Estatal conseguiram a simpatia de diversos socialistas. Já os liberais têm severas críticas em relação ao intervencionismo estatal proposto por Keynes. Entre elas a relação do aumento dos gastos públicos com o aumento de inflação, da dívida pública e dos impostos, além de considerarem que os países que adotaram o modelo keynesiano a partir da década de 30 não conseguiram superar as dificuldades socioeconômicas. Os liberais apontam que alguns países, demonstraram a longo-prazo, agravamento de suas crises econômicas pela aplicação das soluções propostas por Keynes, principalmente em relação à falência do sistema previdenciário público, causado pelo gigantismo do estado e pelo fracasso do dito estado de bem-estar social (Welfare State). Crítica com a qual concordo completamente. O Estado não é um gestor eficiente e, portanto, nunca poderia ser o motor do desenvolvimento e crescimento econômico, devendo deixar este papel para a iniciativa privada, a quem compete a geração de emprego e renda. O Estado deveria concentrar seu foco nas prioridades da população como segurança, saúde e educação, serviços que o Brasil sequer consegue suprir com uma nota 5. E na educação eu ainda sou mais favorável ao vaucher. Ainda mais com o MEC querendo acabar com a história ocidental nas escolas e toda esta ideologia absurda que a esquerda e o PT nos enfiou goela abaixo.

A aplicação da Política do Bem-estar Social nos Estados Unidos: o New Deal

Para tentar tirar os Estados Unidos da Grande Depressão, o presidente Franklin Roosevelt criou um conjunto de medidas econômicas – New Deal – baseadas no keynesianismo, substituindo o liberalismo de Adam Smith pelo que se convencionou chamar neocapitalismo de Keynes, estabelecendo regras de mercado e o intervencionismo na economia. Os políticos liberais conservadores da Suprema Corte se opuseram fortemente a Roosevelt, inclusive rejeitando diversas medidas propostas por considerá-las excessivamente assistencialistas e paternalistas. O New Deal deveria ser um “novo pacto”, na verdade um acordo entre as forças produtivas e o Estado.

Fazia parte do New Deal o intervencionismo estatal visando à reativação da economia; o incremento de obras públicas; crédito barato e aumento do poder aquisitivo do consumidor. O governo passou a conceder crédito para as empresas, interveio na agricultura e adotou inúmeros procedimentos assistenciais de atendimento aos trabalhadores bem como a construção de grandes obras públicas para amenizar a alta taxa de desemprego. Roosevelt determinou grandes emissões monetárias, inflacionando deliberadamente o sistema; fez investimentos estatais como hidrelétricas; estimulou uma política de empregos, ativando o consumo e possibilitando a progressiva recuperação da economia.

Os trabalhadores foram incentivados a se sindicalizarem através da Lei Wagner de Relações Operarias. Em 1935 foi aprovada a Lei de Seguridade Social. Outras leis significativas foram a Lei de Procedimentos Bancários e da Comissão Regulamentadora de Títulos e Câmbios, que concentrou o controle das finanças nas mãos da Administração Pública, em detrimento de Wall Street.

Mesmo assim, os Estados Unidos levariam 10 anos para se aproximar dos patamares pré-1929. Tal política neocapitalista teve predomínio até o final dos anos 1970, quando começaram a surgir os primeiros efeitos negativos como recessão e altíssimo endividamento do setor público. A liberdade de mercado volta a ser defendida por teóricos como Friedrich Von Hayek e membros da escola monetarista de Chicago, a exemplo de Milton Friedman e Robert Lucas, cujas ideias veremos no próximo texto.