Manipulação e agenda setting

No campo da política a formação de opinião pública é prioridade máxima, bem como o controle da agenda (os temas estão em debate público). Com esta finalidade os governos gastam milhões em publicidade estatal, coordenada por profissionais de comunicação estratégica e marketing. Portanto, quando vejo o lançamento de uma pesquisa Datafolha melhorzinha para a presidente Dilma, conjugada com uma série manchetes muito bem planejadas e outras ações anti-impeachment não posso me surpreender e nem me desesperar. É preciso analisar o que está sendo feito, com humildade de reconhecer a maestria do grande golpe que está em curso, e divulgar aos quatro ventos, para que mais pessoas se deem conta da grande manipulação que está em curso e de seus objetivos, um tanto óbvios.
Nos últimos dois meses, manobra inteligente e orquestrada na grande mídia, nas redes sociais e pelas manifestações “governistas e pagas” de rua fez parecer que os crimes de Cunha são mais graves do que os cometidos pelo governo Lula-Dilma. Ora, nada a favor de Cunha (fez tem que pagar), mas o dinheiro ilícito que ele teria fora do país não é oriundo de corrupção na Petrobrás e de acordos espúrios com as mesmas construtoras envolvidas na Lava Jato? Como os ilícitos de Cunha poderiam ser maiores do que os cometidos pelo governo? Não o são. São parte de algo muito maior que nós já vislumbramos. Mas Cunha foi usado como “decoy” para ocupar o espaço de vilão máximo na mídia, desviando a atenção geral e dando um alívio para a presidente, para que ela melhorasse um pouco na próxima pesquisa.
O Datafolha foi divulgado no fim de semana “informando” que a rejeição à presidente caiu (de 71% para 65%) e que a avaliação positiva subiu (de 10% para 15%). Aliado a isto vemos uma série de manchetes orquestradas e simultâneas como “A Virada de Dilma”, “Governo melhora avaliação”, “Avaliação positiva sobe”, “Cai a rejeição da presidente Dilma”, publicadas nos meios de comunicação simpatizantes com o governo (Cafezinho, Brasil 247, Folha de São Paulo, Carta Maior e todos os tipos de bloguezinhos de esquerda…).
Como estratégia paralela, em timing perfeito, o STF toma a decisão desastrosa de dar superpoderes ao Senado, rasgando a constituição e mudando o rito do impeachment e também anulando a eleição da chapa avulsa para a Comissão de Impeachment (não governista) e Picciani retorna à liderança do PMDB. O desafeto de Temer é que decidirá o nome dos oito componentes do PMDB na comissão. Tal como na decisão do STF e no voto antecipado de Fachin, isto só tem como objetivo tentar ludibriar a opinião pública, fazendo parecer que a decisão será imparcial, quando tudo já foi combinado nos bastidores.
Paccini promete fazer mudanças na indicação dos oito nomes da Comissão, contemplando até os dissidentes e buscando uma pretensa “unificação” do PMDB, mas o PMDB está rachado. Esta ruptura está simbolizada nas figuras de Renan de um lado e Temer de outro. A disputa entre eles vai além de quem vai emplacar o sucessor de Cunha. A convecção do PMDB será em março e a ala governista de Renan articula para tirar Temer da presidência nacional da sigla. Picciani também tem o apoio do palácio do Planalto para ser o possível substituto de Cunha. Afinal na podre política institucionalizada por este governo do troca-troca e do mensalão tudo é negociável.
A tentativa clara destas ações conjugadas é de esfriar o sentimento da população em relação a possibilidade de impeachment da presidente, difundido a ideia de que nada irá acontecer. O terreno está preparado pelo STF e pela recondução de Picciani. Outro objetivo claro é desmobilizar as pessoas para que elas não saiam às ruas para se manifestar em 13 de março de 2016, tirando-lhes a esperança de conseguir mudar o que está aí. Depois de tentar taxar os movimentos de coxinhas e golpistas agora o objetivo dos estrategistas de comunicação é fazer parecer que sair as ruas é perda de tempo. O que eles querem é que fiquemos em casa, resignados, de volta ao silêncio, abnegados com o destino triste imposto, a mercê deste governo ilegítimo e segundo o que já foi amplamente divulgado, eleito com dinheiro roubado.
Vamos ser honestos com nós mesmos, não existe recuperação possível do governo Dilma. Não temos mais brasileiros gostando da presidente e achando seu governo eficiente. Nada de concreto e positivo aconteceu para que este resultado aparecesse. O que existem são manobras para resignar e amortecer a opinião pública, desviando o foco do que está acontecendo, do que deveria estar no topo da agenda de todos os brasileiros. Substituir Dilma por Cunha na grande mídia foi um sucesso.
Precisamos redobrar nossa atenção. Queremos o combate irrestrito da corrupção, em todos os partidos e instâncias. Mas o mais importante, precisamos freiar o projeto político populista que está em curso no país, fazendo um estrago nunca antes visto, arruinando gerações de brasileiros, se alimentando da miséria e da ignorância para se manter no poder e implantando aos poucos os conceitos do Foro de São Paulo no Brasil. Para isto é prioritário o impeachment, o foco, a continuação e o fortalecimento da Lava Jato (para que ela tenha o efeito dominó que desejamos), e a prática constante da cidadania ativa e vigilante – digital e nas ruas. Eles esperam que nos calemos, mas agora é a hora de concentramos esforços, mesmo que exaustos. Mas que sejamos inteligentes, como eles, nas nossas estratégias de comunicação e mobilização. Pensemos.

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